Alternativa
A sobrecarga do ensino à distância
Profissionais da educação pública relatam as dificuldades enfrentadas com as atividades remotas e o excesso de trabalho
Divulgação -
Devido à pandemia, as escolas precisaram se readaptar para atender os alunos. Com isso, o ensino remoto se tornou essencial. Acontece que por trás de cada aula existem profissionais não formados para trabalhar com o ensino à distância e, consequentemente, sobrecarregados com as atividades. Em Pelotas, a rede estadual adotou a plataforma classroom, já os educandários municipais estão usando ferramentas que se encaixam melhor com a realidade de cada local.
Antes da aula chegar até o aluno ela percorre um caminho, não tão curto. É necessário que um professor a prepare, que um supervisor a aprove para depois ela ser postada. Coordenadora geral do Colégio Municipal Pelotense desde 2015, Graciane Pereira afirma: “A demanda já era grande de forma presencial, agora parece que dobrou”. A profissional conta que a rotina mudou completamente e o aprendizado vem chegando de forma diária, já que nenhum dos mais de 300 professores da escola estavam acostumados com atividades remotas.
O lado positivo da mudança é o trabalho em grupo, pois toda equipe, apesar de cansada, oferece seu melhor em cada afazer. Graciane trabalha diretamente com 15 coordenadores de áreas e modalidades e através deles recebe as principais demandas. Além disso, organiza planejamentos, acompanha uma série de alunos e revisa as atividades formuladas pelos docentes. “É difícil, temos que nos reinventar diariamente”, desabafa. O Pelotense é casa de cerca de três mil alunos, mas muitos ainda não conseguem acessar o material didático. “Uns têm aparelho, mas não tem acesso, outros precisam dividir o computador com outros membros da família”, conta. Até o momento, a escola concentra as atividades através de diversos grupos de facebook, depois de realizadas os alunos enviam diretamente para os professores via e-mail.
Na rede estadual a realidade não é nem um pouco diferente. Robson Villi assumiu a supervisão do currículo do Colégio Cassiano do Nascimento no início de 2019. “Na verdade eu nem sei como é a rotina da função de forma presencial”, completa. Mas o que ele sabe é que do jeito que está é cansativo. Nesse momento, as dúvidas são constantes, tanto de professores, direção, pais e alunos, então, Villi assumiu a parte de assessorar todos que estejam com dificuldades na plataforma. “Estou falando contigo e já chegou quatro e-mails com esse assunto”, disse à reportagem. Orientar professores, organizar xerox para os que não tem acesso à rede, verificar chamadas e atender alunos são algumas das outras atividades do supervisor, além dos afazeres enquanto docente, pois também leciona no mesmo local. “Mas somos uma equipe, trabalhamos juntos”, salienta.
Outro ponto destacado por Villi são as demandas de webconferências e formações exigidas pelo Estado. “São extremamente importantes, mas muito complicado de acompanhar”, lamenta. Quando questionado sobre a maior dificuldade do novo período, as respostas foram diversas, mas destacou a quantidade de horas que é necessário ficar na frente do computador ou celular. “Muitas vezes acabo o dia exausto fisicamente e mentalmente”, conta. A dificuldade de acesso também está acontecendo por lá. Segundo ele, cerca de metade dos alunos, por turma, não conseguem chegar até o conteúdo. “Ter acesso não quer dizer ter uma boa internet”.
Na Escola Estadual de Ensino Médio Santa Rita, a supervisora Michele Azevedo resolveu fazer as contas das horas trabalhadas e o resultado foi que as 40 horas semanais - que é contratada - viraram 60 horas. “Não tenho final de semana desde abril”, desabafa. Ela e mais uma colega atendem os 44 professores da instituição. Trabalhos que não eram necessários de forma presencial, agora são indispensáveis, como, por exemplo, a revisão das aulas. “Antes tínhamos um planejamento anual, agora precisamos olhar essas aulas e pensar que quem também não tem acesso ao classroom precisa realizá-las”, diz. Desde que a nova plataforma foi posta em funcionamento os acessos caíram. Por isso, o educandário segue disponibilizando material via facebook e quando o município não está em bandeira vermelha os responsáveis podem retirar as atividades impressas. “É difícil manter o trabalho, os alunos e nós acabamos ficando desmotivados”.
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